Seminário promovido pela Embrapa enfoca a pecuária de corte em sistemas de baixo carbono  
10.11.2021

A atividade pecuária tem sido apontada como uma das grandes responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa, diretamente relacionados às mudanças climáticas, como ficou claro nos principais debates levados a cabo durante a Conferência da ONU sobre Mudança Climática, a COP 26, atualmente realizada em Glasgow, Escócia.

A Embrapa há alguns anos vem trabalhando sobre esse tema, tanto para uma aferição mais precisa apoiada em dados científicos sobre o papel da pecuária nesse processo, como também no desenvolvimento de soluções tecnológicas e recomendações que contribuam para a mitigação na emissão desses gases pela atividade.

Parte destes estudos será apresentada no próximo dia 16, com a realização do seminário "Sustentabilidade da pecuária de corte em sistemas de baixo carbono", que contará com a participação de pesquisadores envolvidos com o tema em evento realizado em formato virtual, a partir das 10 horas. 

O objetivo principal do seminário é disponibilizar informações de pesquisas da Embrapa sobre as relações entre a pecuária e as mudanças climáticas. O evento contará com a participação de cinco unidades da Embrapa: Pecuária Sul (Bagé-RS), Gado de Corte (Campo Grande–MS), Agrobiologia (Seropédica-RJ), Solos (Rio de Janeiro-RJ) e Agroindústria de Alimentos (Rio de Janeiro-RJ). A realização desse seminário foi viabilizada a partir de uma emenda parlamentar proposta pelo deputado federal Christino Aureo, do Rio de Janeiro, cujos recursos também serão utilizados para a continuidade de pesquisas relacionadas ao tema.

Para Marcos Borba, chefe-adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Pecuária Sul, a empresa pode contribuir muito para esse debate e também para ajudar na mitigação dos GEE pela atividade. Segundo ele, a questão entrou no radar da Embrapa há alguns anos e hoje existe um grande número de pesquisas e estudos sobre o processo de emissão de gases pela pecuária, assim como estratégias para a sua mitigação. “A realização desse seminário vem em um momento muito oportuno, quando as discussões sobre o papel da pecuária nas mudanças climáticas ganhou protagonismo nas discussões da COP26”.

Para o pesquisador, a pecuária precisa ser vista como parte da solução para as mudanças climáticas e não como um problema. “A Embrapa já disponibiliza uma série de estratégias para a pecuária, em sistemas naturais ou integrados, que garante um balanço bem mais favorável de carbono na atividade a partir do uso de tecnologias e de recomendações de manejo”, ressaltou.

Essa visão também é compartilhada pela pesquisadora Cristina Genro, da Embrapa Pecuária Sul. que há mais de dez anos trabalha com a questão. De acordo com ela, pesquisas têm demonstrado que apenas com o manejo correto e sustentável na pecuária é possível reduzir significativamente a emissão de GEE.

Segundo Cristina Genro, práticas de manejo até relativamente simples, como o controle da altura das pastagens, contribui de forma muito positiva para alcançar esse objetivo. Para a grande maioria de espécies de forrageiras utilizadas no país, a Embrapa tem estudos que indicam a altura ideal para o seu manejo, o qual garante uma  taxa de lotação animal adequada nas pastagens, garantindo assim um processo que leva a uma maior estocagem de carbono nos sistemas utilizados, maior produção de pasto e melhor desempenho animal.

“Pastagens bem manejadas podem ser um grande sumidouro de carbono”. Além de aumentar o sequestro de carbono e diminuir a emissão de GEE, sistemas bem manejados, com o uso de forrageiras de qualidade e o ajuste da carga animal nas áreas de pecuária, levam a uma maior eficiência do sistema, garantindo assim uma maior produtividade e o abate dos animais em menor tempo.

Esse encurtamento no tempo para o abate é muito relevante para reduzir as emissões de metano produzido pelos ruminantes, o gás de efeito estufa mais importante na pecuária bovina, segundo Robert Boddey, pesquisador da Embrapa Agrobiologia. Resultados de estudos, que apresentará no evento, mostram como esse ganho de eficiência implica na mitigação de gases, e também no chamado “efeito poupa-terra”, decorrente dos ganhos de produtividade animal.

O pesquisador Bruno Alves, também da Embrapa Agrobiologia, chama a atenção para o óxido nitroso, gás de efeito estufa de altíssimo potencial de aquecimento da atmosfera, gerado de dejetos de bovinos e fertilizantes. "As pesquisas indicam que  a qualidade da forragem modifica a alocação do nitrogênio excretado na urina e nas fezes bovinas, e resulta em níveis diferentes de emissão desse gás, o que deve ser considerado no manejo das pastagens", complementa Alves. O pesquisador apresentará no evento resultados de estudos que revelam esses efeitos, assim como o impacto da fertilização nitrogenada.

 

Pecuária de baixo carbono

Um dos painéis será sobre os produtos gerados em sistema de baixo carbono, mediado por Elen Nalério (Embrapa Pecuária Sul), com a participação dos pesquisadores Roberto Giolo (Embrapa Gado de Corte) e o protocolo carne baixo carbono; Márcia Silveira (Embrapa Pecuária Sul) e a produção de carne com baixa emissão de carbono em pastagens tropicais: um estudo de caso; finalizando com o tema qualidade da carcaça e da carne em sistemas CBC com o especialista, Gelson Feijó, pesquisador da Embrapa.

A Plataforma de Pecuária de Baixo Carbono, iniciativa genuinamente brasileira, desenvolvida pela Embrapa (e suas Unidades) e empresas parceiras, ao longo de dez anos, desenvolveu a concepção de marcas-conceito para a certificação de produtos da pecuária de corte, produzidos em sistemas pecuários com foco em baixa emissão de carbono. Nesse sentido, destacam-se o Bezerro Carbono Neutro (BCN), Carne Baixo Carbono (CBC), Carbono Nativo (CN) e Couro Carbono Neutro (Couro-CN), além de uma calculadora de carbono (calc-C).

Já disponíveis no mercado brasileiro, as marcas Carne Carbono Neutro (CCN) e Carne Baixo Carbono (CBC) tem sido usadas para certificar a sustentabilidade dos sistemas agrícolas que sequestram carbono por meio de árvores (sistema CCN), ou sistemas que tem o componente solo (Protocolo CBC) como base. Enquanto no protocolo CBC a premissa é a recuperação de pastagens, com mitigação dos gases, possível de ser empregado em mais de 50 milhões de hectares, no sistema CCN as emissões são neutralizadas pelo próprio sistema

“Os ganhos são do produtor, da cadeia da carne, da sociedade brasileira e em última instância de toda a humanidade, ao promover maior valorização do produto e melhor visibilidade do País no mercado global”, analisa Roberto Giolo, ao afirmar que a iniciativa contribui também para minimizar a pressão por abertura de novas áreas para a pecuária, pois apresenta efeito poupa-terra e, portanto, auxilia nos esforços para equacionar a questão do desmatamento no Brasil.

 

Fonte: Embrapa Gado de Corte

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